O vazio, ao contrário do que pode parecer, também é uma alucinação! O vazio não é uma sensação passiva, antes, é de uma agressividade que impele a lapsos de morte. Uma vontade de poder lançar-se nos projetos do desejo, mas ao fazê-lo, cair num abismo de ausências. Mas é preciso reconhecer o vazio vendo-o como resistência, como negação do absurdo. Num deserto medonho poder ouvir as vozes do belo, distantes, efêmeras, mas produtoras de toda esperança. Sentir exalar de forma avassaladora e sublime o cheiro forte das Flores do Mal.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
fome de tudo
Sinto constantemente e em variados momentos uma sensação agressiva quanto ao desejo irrestrito e incontrolável de comer o mundo. Um amor confuso que amedronta; excitando meus sentidos todos.
mundo obscuramente sedutor
Num primeiro momento o corpo repreende o espírito; acusa-o de deturpar sua ordem. Esta batalha pode durar momentos variados. O espírito, quieto e revolto aguarda o momento em que o corpo reconhecerá as delícias dispostas num horizonte infinito. Cada possibilidade se constitui pelo encontro de conteúdos que como cavalos halados sobrevoam o incomensurável, que caindo de cada dimensão do tempo, sinalizam a formação de uma memória quebradiça. E a cada instante se forma uma imagem maior e ainda mais quebrada, mas que se aprofunda numa existência sempre efêmera e constante. Finalmente o corpo cede, e resigna-se nesta inefável tortura. Concebe as delicias que o espírito lhe deu como forma de aplacar sua ira mundana. Sofre enquanto goza esse líquido espesso de uma vida mergulhada nas sendas infindas do inconsciente. Como se o vale da sombra da morte fosse a única condição na qual posso permanecer vivendo. Ali, ao contrário de Davi, aprendi a viver sem deus. Não desejo que ele me retire de lá. deus é infinitamente menor que os raios ancestrais de vida que absorvo em cada gesto da existência. A vida como caos é sentida na sua plena falta de sentido e é o maior de todos os delírios sedutores. Desejar morrer e desejar viver em uma fração temporal infinitesimal se constitui no liame sutil no qual meus passos caminham. Esse liame é o lugar mais pleno, escolher um dos dois pólos dessa dialética é ou incorrer no desespero da desistência ou na alienação brutal da inexistência. Estando nele sorvo o que de mais belo cada um possui. Só sei viver no entre-lugar.
nascimento
Nascera ali, simbioticamente originária, estabelecendo um fruto vindouro e determinando uma existência imaginativa. Sua primeira forma era a de um líquido temporal transparente, indiferente à própria cronologia daquele rebento. Sua constituição temporal é a forma de um portal, infinitamente aberto e ancestral. Estabeleceria uma relação constante de espera e evolução entre o corpo e o espírito. E sob o epíteto de Expansão da Consciência faria irromper uma forma, fluída e tridimensional, um ponto de passagem. Nasce no corpo como um símbolo tardio de uma existência infinita, para sob o signo do som, anunciar um novo mito, uma nova epopéia. Macô, tatuagem cibernética, psicodélica e mitológica.
liame da não-semanticidade
A palavra é a abertura ao infinito. Diz-se de campos semânticos, isso ainda é pouco. Não há limites semânticos, pois na abertura da palavra mergulhamos até o outro e até nós mesmos, todo homem é um abismo, uma vertigem!
corpo transparente
É uma violência, mas tanto me liberta quanto me aprisiona; deixar que as sensações no universo fluam em você, que você as recrie, lhes dê formas e conteúdos. Inefável tortura!
o encontro
Ondas leves e gentis conduzem minha imaginação! Jazz, sedução e, a doçura desta fêmea sonhadora. Meu corpo sente o toque fugaz e infinito desta ânima. Ao mesmo tempo, o encontro entre ela e o animus deste pó negro produzem euforia e letargia! Minhas veias são rios caudalosos que conduzem essa seiva rica em devaneios. E assim, fico desperto numa vigília sonora, nos limites imprecisos deste sono. As lógicas são invertidas, e a imagem assume postura soberana frente ao raciocínio lógico.
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